Estação de terra: antenas, rádio e receção de telemetria
O que a estação tem de fazer
A estação de terra é metade da missão. Recebe telemetria em tempo real, regista tudo com marca temporal e dá à equipa informação suficiente para decidir. Não é um portátil com um adaptador: é um sistema com antena, rádio, alimentação e software testados em conjunto.
Os requisitos típicos são modestos: alcance de 2 a 5 km, débito de 1 a 10 kbit/s, autonomia de várias horas e registo redundante. O que falha raramente é o alcance. Falham os cabos, os conectores e a configuração do software feita à pressa.
Algumas equipas acrescentam um canal de comando para pedir reenvio de dados ou mudar a taxa de transmissão. É útil, mas duplica o risco: um comando mal recebido pode silenciar o transmissor. Só se implementa depois de a descida estar estável e testada.

Antenas: do dipolo à Yagi
A antena é o elemento que mais muda o resultado. A 868 MHz, um dipolo de meia onda mede cerca de 17,3 cm e um monopolo de quarto de onda cerca de 8,6 cm. Ambos são omnidirecionais e adequados quando a posição do CanSat é incerta.
Uma Yagi de cinco elementos alcança 8 a 10 dBi e concentra a energia num feixe estreito. Ganha-se alcance e perde-se tolerância à rotação: se o CanSat sai do feixe, a ligação cai. Para um voo com deriva imprevisível, a antena omnidirecional é mais segura.
| Componente | Exemplo | Ganho ou perda | Nota prática |
|---|---|---|---|
| Dipolo de meia onda | 17,3 cm a 868 MHz | 2,15 dBi | simples e omnidirecional |
| Monopolo de quarto de onda | 8,6 cm | 2 dBi com plano | precisa de plano de massa |
| Yagi de 5 elementos | diretiva | 8-10 dBi | exige apontamento fino |
| Cabo RG58 | 5 m | perda de 2-3 dB | curto e de boa qualidade |
O cabo conta mais do que parece. Cinco metros de RG58 a 868 MHz perdem 2 a 3 dB, o que é metade da potência. Um cabo curto e grosso, ou a antena montada diretamente no recetor, evita desperdiçar o ganho conquistado com dificuldade.
A altura da antena vale mais do que o ganho em muitos cenários. Cinco metros acima do solo afastam a antena da vegetação e melhoram a linha de vista para o ponto de queda. Cada metro conta quando o CanSat está deitado no chão, a transmitir a pouca altura.
Rádio e modem
O modem define o compromisso entre alcance e débito. LoRa com spreading factor 7 entrega cerca de 5,5 kbit/s e sensibilidade de -123 dBm; com fator 12 desce a 293 bit/s e ganha 12 a 14 dB. Para telemetria lenta, o fator alto compensa.
A potência de transmissão está limitada por regulamento e por bateria. Em 868 MHz, 14 dBm são comuns e 25 mW ERP é o teto típico em várias subfaixas. Aumentar potência sem melhorar antena é a forma mais cara de ganhar pouco.
O recetor deve ficar longe de fontes de ruído: inversores, carregadores e o próprio portátil. Um SDR ligado por USB ao computador capta ruído do barramento e perde sensibilidade. Cabo blindado e filtro de modo comum resolvem boa parte do problema.
A escolha entre FSK e LoRa depende do que se quer proteger. FSK dá débito e latência baixa, mas exige relação sinal-ruído melhor. LoRa troca débito por sensibilidade e resiste a interferência estreita, o que num ambiente urbano ou junto a estradas faz diferença.
Orçamento de ligação
O cálculo é simples e faz-se antes do voo. Some potência de transmissão e ganhos, subtraia perdas de cabo e espaço livre, e compare com a sensibilidade do recetor. A margem deve ficar acima de 20 dB para acomodar chuva, vegetação e desalinhamento.
A perda de espaço livre a 868 MHz é de 97 dB a 2 km e de 103 dB a 4 km. Com 14 dBm, duas antenas de 2 dBi e 3 dB de perdas, chega-se a -82 dBm no recetor a 2 km, o que deixa 41 dB de margem sobre -123 dBm.
A margem não é constante. Com o CanSat no solo, entre vegetação, perdem-se 10 a 20 dB. Com a antena mal polarizada, a perda pode chegar a 20 dB. O orçamento serve para saber quanto se pode perder antes de a ligação desaparecer.

Software de receção e registo
O software tem três funções: descodificar, mostrar e gravar. A gravação é a única obrigatória. Um ficheiro com marca temporal, quadro bruto e valores descodificados permite refazer toda a análise mesmo que a interface falhe a meio.
- Registo em bruto, sem perda, com data e hora do sistema.
- Sincronização de tempo por GPS ou NTP, para alinhar com o registo de bordo.
- Indicadores visíveis de RSSI, SNR e contagem de quadros perdidos.
- Exportação para CSV sem transformações pelo caminho.
Convém ter dois registos independentes: o portátil e um gravador autónomo, como um módulo com cartão SD. Se o portátil reiniciar ou a aplicação fechar, o segundo continua a gravar. O custo é baixo e a diferença faz-se no dia em que tudo corre mal.
Operação no dia do voo
A estação monta-se antes de o CanSat estar pronto. Mastro de 4 a 5 m, antena apontada, cabos presos, alimentação ligada e registo a correr. Testa-se com o transmissor a 100 m e confirma-se a taxa de quadros recebidos antes de qualquer integração.
Durante o voo, a equipa regista hora, altitude, RSSI e observações. Comentários em voz num gravador poupam horas de interpretação depois. Se a ligação cair, anota-se o instante e a última posição conhecida, em vez de mexer na antena às cegas.
Após o embate, a estação procura o beacon e mede a força do sinal em pontos diferentes do terreno. Essa informação, cruzada com o último fix, reduz a área de busca de quilómetros para centenas de metros.
A distância entre a estação e a zona de lançamento deve ser decidida no planeamento, não no dia. Perto demais, o recetor satura com o sinal forte do CanSat a poucos metros; longe demais, perde-se margem. Dois a três quilómetros é uma faixa confortável para potências baixas.
Erros que custam a missão
Os erros repetem-se. Antena mal cortada, conector mal soldado, taxa de transmissão errada, ficheiro a gravar no diretório temporário. Nenhum é exótico, e todos aparecem no ensaio se o ensaio for feito com o sistema completo.
A ligação entre a estação e a cadeia de bordo descrita em sensores e telemetria tem de ser testada com a trama real, não com texto de exemplo. E nenhuma antena se liga sem verificar o regulamento de frequências e licenças em vigor.
