Relatório final: como apresentar resultados de missão
Um relatório final de missão CanSat tem leitores com perguntas diferentes: quem avalia quer saber se os requisitos foram cumpridos, quem constrói quer saber o que falhou e porquê, quem financia quer saber o que se aprendeu. O documento tem de responder às três em poucas páginas, sem repetir o diário de bordo.
O relatório não é um diário
Narrar a cronologia do projeto é a forma mais rápida de perder o leitor. O relatório organiza-se por conclusões, não por semanas de trabalho. Cada secção deve poder ser lida de forma independente e terminar com uma afirmação verificável, apoiada num número ou numa figura.
Comece pelo resumo de missão: objetivo, resultado global, desvios face ao plano e recomendação para a próxima campanha. Quem só ler essa página deve ficar com a resposta completa. Os detalhes técnicos vêm depois e servem para sustentar o que já foi dito.

Estrutura em seis secções
- Resumo de missão, com objetivos e resultado global.
- Descrição da plataforma, versão do hardware e do firmware.
- Plano de voo e condições reais no dia do lançamento.
- Resultados, com tabela de requisitos e gráficos de voo.
- Análise de falhas e desvios, com causa provável e evidência.
- Lições aprendidas e recomendações concretas para a edição seguinte.
Esta ordem funciona porque separa factos de interpretação. O leitor pode discordar das recomendações sem discordar dos dados, o que raramente acontece quando os dois estão misturados no mesmo parágrafo.
Requisitos verificáveis
Um requisito que não pode ser medido não pode ser avaliado. «Transmitir telemetria de forma fiável» não é um requisito; «transmitir pelo menos um pacote por segundo durante 90 por cento do tempo de voo» é. Escreva o critério de sucesso antes do voo e não o ajuste depois de ver os resultados.
A tabela de requisitos é o coração do relatório. Cada linha liga um requisito ao critério, ao valor obtido e a um estado claro. Quando o valor não foi medido, escreva «não medido» e explique porquê, em vez de deixar a célula vazia.
| Requisito | Critério de sucesso | Resultado | Estado |
|---|---|---|---|
| Apogeu | Entre 400 e 600 m acima do solo | 512 m | Cumprido |
| Taxa de descida | Entre 6 e 9 m/s sob o principal | 7,4 m/s | Cumprido |
| Telemetria | 1 pacote/s em 90 por cento do voo | 82 por cento | Parcial |
| Temperatura interna | Abaixo de 45 °C | 51 °C aos 140 s | Não cumprido |
| Recuperação | Integridade estrutural após impacto | Duas fissuras na tampa | Parcial |
Condições reais do voo
Um resultado só é interpretável com o contexto do dia. Registe a hora do lançamento, a temperatura e a pressão à superfície, a velocidade e a direção do vento estimadas e o tipo de terreno na área de recuperação. Um apogeu abaixo do previsto pode ser consequência do vento e não de um defeito no paraquedas.
Se não houver estação meteorológica no local, indique a fonte dos dados e a distância a que foram medidos. Estimar o vento a partir da deriva do próprio CanSat é possível, mas deve ser apresentado como estimativa e não como medição.

Figuras com função
Cada figura deve sustentar uma frase do texto. Se uma imagem não é citada, sai do corpo e vai para anexo. Para resultados de voo bastam três: altitude e velocidade vertical no tempo, mapa da deriva horizontal e um corte da plataforma com a localização dos sensores.
Não sobrecarregue os gráficos com anotações. Marque apenas os eventos que o texto discute e indique as unidades nos eixos. Uma figura com dez legendas obriga o leitor a fazer o trabalho que o relatório devia fazer por ele.
Falhas sem culpados
A análise de falhas descreve mecanismos, não pessoas. Em vez de «a equipa esqueceu-se de fixar o paraquedas», escreva «a fixação do paraquedas dependia de fita adesiva e não resistiu à vibração do lançamento». A segunda frase aponta uma solução; a primeira apenas fecha a discussão.
Para cada desvio, registe o sintoma observado, a evidência disponível e a causa provável com o grau de confiança. Distinga o que foi confirmado por teste do que é hipótese. Essa distinção é o que permite à edição seguinte priorizar corretamente as alterações.
Vale a pena manter um registo de falhas mesmo quando o voo corre bem. Problemas que não chegaram a afetar o resultado, como um conector mal crimpado que resistiu por sorte, são os candidatos mais prováveis a falhar na campanha seguinte.
Linguagem, formato e entrega
Frases curtas, voz ativa e unidades no sistema internacional. Evite adjetivos que não se possam medir: «desempenho excelente» não informa, «erro de altitude inferior a 8 m até aos 300 m» informa. As siglas aparecem por extenso na primeira utilização, mesmo as que parecem óbvias para a equipa.
Entregue um PDF com figuras vetoriais e um anexo com os ficheiros de dados. Nomeie as versões de forma inequívoca, por exemplo relatorio-v3-2026-05-14, para que a referência no email não dependa da data de envio.
Rastreabilidade e revisão
Numere requisitos, figuras e tabelas e cite-os pelo número. Guarde as versões do firmware e dos ficheiros de dados referidos no texto, com um identificador que sobreviva a mudanças de computador. Um relatório cujos dados não podem ser reabertos perde valor no mesmo trimestre.
Antes de entregar, peça a leitura a alguém que não participou no voo. Se essa pessoa não conseguir dizer qual era o objetivo e se foi cumprido, o resumo ainda não está pronto. Corrija o resumo, não o leitor.
O relatório fecha o ciclo aberto no planeamento de missão e alimenta a análise descrita em análise de dados, que fornece os números citados em cada secção.
