Regulamento ESA CanSat: o que é realmente avaliado
O regulamento é uma especificação, não um formulário
O documento de uma edição CanSat fixa requisitos, não sugestões. Define o envelope mecânico, a massa máxima, a cadência de telemetria, a altitude de libertação e a grelha de avaliação. Uma equipa que lê o regulamento à procura de campos a preencher perde exatamente a informação que decide a classificação.
A leitura útil faz-se em três passagens: requisitos obrigatórios, requisitos verificáveis em voo e critérios de mérito. Cada requisito deve terminar num item de verificação, com método, responsável e evidência anexada. Sem esse rasto, o requisito existe no papel e desaparece durante a integração.

O envelope de voo em números
Os valores abaixo são a referência habitual das competições europeias. Variam por edição e por organizador, pelo que a confirmação deve ser feita sempre no documento em vigor.
| Parâmetro | Valor típico | Efeito do incumprimento |
|---|---|---|
| Massa total | 300-350 g | Exclusão na pesagem oficial |
| Diâmetro | 66 mm | Não entra no dispensador |
| Altura | 115 mm | Não entra no dispensador |
| Volume | cerca de 330 ml | Referência de projeto |
| Telemetria | 1 amostra por segundo | Perda de dados de descida |
| Velocidade de descida | 8-11 m/s | Janela de voo fora do previsto |
| Autonomia em espera | 2 h | Falha antes da libertação |
Os critérios que realmente pesam
A avaliação raramente premeia o hardware mais caro. Pesa a coerência entre objetivo científico, desenho, dados e conclusão. Um CanSat simples que responde à sua própria pergunta vale mais do que uma plataforma sofisticada sem resultados tratados.
Os blocos de avaliação repetem-se edição após edição: desempenho técnico, valor científico, qualidade da documentação, apresentação e trabalho de equipa. Os pesos mudam de edição para edição, mas a estrutura mantém-se. A documentação é o bloco mais fácil de ganhar e o mais frequentemente perdido.
- Desempenho técnico: o sistema cumpriu os requisitos e sobreviveu ao voo.
- Valor científico: a experiência produziu dados que respondem à hipótese.
- Documentação: requisitos, interfaces e verificações estão rastreados.
- Comunicação: a apresentação explica decisões, não apenas resultados.
Na prática, o júri chega à nota por evidência, não por intenção. Um requisito demonstrado em voo vale mais do que um requisito descrito com convicção, e a equipa que apresenta dados brutos com tratamento honesto raramente desce de nível. As perguntas repetem-se: porque escolheram este sensor, como o calibraram, o que falhou e o que fariam diferente.
Vale a pena preparar respostas curtas para essas quatro perguntas e treiná-las em conjunto. A apresentação é curta e a discussão técnica é onde se ganham ou perdem os últimos pontos.
Verificação em voo: o que se espera a bordo
Durante a descida, o regulamento espera telemetria contínua com dados da experiência e dados de engenharia. Temperatura interna, tensão da bateria, estado do paraquedas e contagem de pacotes não são acessórios: são a prova de que o sistema funcionou como foi desenhado.
Se a experiência mede pressão e temperatura externa, uma cadência de 1 Hz é suficiente para reconstruir o perfil de descida com boa resolução. Se mede vibração ou aceleração, a mesma cadência não chega, e muitas edições permitem registo local desde que os dados sejam recuperados após o voo.
Confirme também o que acontece antes da libertação. Muitos regulamentos exigem telemetria ativa durante a subida, e um sistema que só acorda no instante da ejeção perde os primeiros segundos - precisamente os mais difíceis de reconstruir depois.

Documentação técnica exigida
A maior parte das edições pede um conjunto de entregáveis ao longo do ano. A nomenclatura varia, a lógica não: revisão de requisitos, revisão crítica de desenho, documento de interfaces e relatório de missão.
- Revisão de requisitos: missão, orçamentos de massa e energia, plano de verificações.
- Revisão crítica de desenho: esquemáticos, lista de materiais e análise de riscos.
- Documento de interfaces: pinagem, protocolos, conetores e níveis lógicos.
- Plano de testes: vibração, térmicos e alcance de rádio.
- Relatório final: dados brutos, tratamento, desvios e lições aprendidas.
Um erro comum é tratar estes documentos como burocracia e escrevê-los na semana anterior à entrega. Nessa altura já não corrigem o desenho, apenas o descrevem.
Versões importam. Um documento de interfaces sem número de versão e sem data gera incompatibilidades silenciosas: a placa foi feita para a versão 2 e o firmware para a versão 3. Registe cada alteração e comunique-a a quem integra, mesmo quando a alteração parece trivial.
Os erros que custam mais pontos
O primeiro é a ausência de rastreabilidade: a equipa afirma que cumpriu um requisito sem indicar onde nem como o verificou. O segundo é a telemetria ilegível, com pacotes sem sincronismo, sem identificador e sem verificação de integridade.
O terceiro é o otimismo nos orçamentos. Massa e energia são estimadas no início e nunca atualizadas, e a integração revela 30 g e 200 mAh que ninguém contabilizou. O quarto é a demonstração sem dados: uma apresentação cuidada com gráficos que não vêm do voo.
Há ainda um erro de leitura, que passa despercebido: confundir requisitos com recomendações. O que é obrigatório está identificado como tal, e o resto é margem de desenho. Tratar recomendações como obrigações engessa o projeto sem ganhar um único ponto.
Na componente de rádio, as falhas caras são previsíveis: antena mal sintonizada, conetor soldado com esforço mecânico e pacotes enviados a alta taxa sem margem de ligação. Um teste de alcance de 500 m em linha de vista, feito duas semanas antes do voo, deteta quase todas.
Como ler a edição em vigor
Comece pelo anexo de requisitos e sublinhe todos os verbos de obrigação. Depois construa uma matriz simples com três colunas: requisito, método de verificação e evidência. Preencha-a durante o desenho, não no fim.
Confirme sempre a versão do documento e a data de publicação. As edições alteram massas, bandas e prazos, e um requisito citado de memória é a forma mais rápida de falhar uma verificação. O orçamento de massa e dimensões e o relatório final são os dois pontos onde essa leitura se prova.
